A descoberta do esqueleto de Fernanda, uma idosa de 73 anos, no Bairro de S. Roque da Lameira, no Porto, está a chocar o país e a expor falhas críticas no sistema de acompanhamento social. O corpo foi encontrado na tarde de quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, após estar cerca de dois anos em decomposição no interior da sua habitação.
Aqui estão os detalhes mais recentes deste caso que serviu de “despertador” para a cidade:
O Alerta da Médica de Família
Ao contrário dos vizinhos ou da empresa municipal que geria o prédio, foi o sistema de saúde que deu o primeiro sinal de alarme.
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A Falta às Consultas: A médica de família do Centro de Saúde de Campanhã estranhou a ausência de Fernanda, que era diabética, e não aparecia em consulta há cerca de dois anos.
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O Denlace: Perante a impossibilidade de contacto, a médica alertou a PSP, que, ao arrombar a porta com o apoio dos bombeiros, encontrou os restos mortais da idosa sobre a cama, rodeados por lixo acumulado.
O Mistério dos Avisos de Despejo
Um dos pontos mais polémicos do caso envolve a Domus Social, a empresa municipal de habitação do Porto:
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Inexistência de Resposta: Nos últimos dois anos, a empresa afixou na porta de Fernanda vários avisos de despejo por falta de pagamento de renda.
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Falta de Cruzamento de Dados: Embora os avisos fossem ignorados e se acumulassem na porta, não houve um alerta social imediato que levasse à entrada forçada na habitação, presumindo-se, por parte dos vizinhos, que a idosa estaria num lar ou hospitalizada.
Perfil de Isolamento e Acumulação
Fernanda era descrita como uma pessoa extremamente reservada e “difícil”:
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Auto-isolamento: Mantinha sempre as persianas fechadas e raramente falava com os vizinhos.
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Dificuldade Física: Antes de desaparecer do radar, tinha sofrido uma queda que a deixou com um braço imobilizado, o que poderá ter precipitado o seu estado de vulnerabilidade.
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Silêncio Fatal: O odor a lixo que emanava da casa, devido ao seu comportamento de acumuladora, mascarou o cheiro da decomposição do corpo durante as primeiras semanas após a morte.
Reação Política: Novo “Projeto Piloto”
O presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, reagiu esta sexta-feira, assumindo que o sistema atual falhou:
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Revisão do Modelo: O autarca admitiu que seguir as regras vigentes não foi suficiente e anunciou a criação de um novo projeto piloto de acompanhamento diário para idosos em situação de isolamento extremo.
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Programas Atuais: Programas como o “Porto Importa-se” e o “ConDomus” serão reavaliados e reforçados para que situações de “morte silenciosa” como esta não voltem a ocorrer.
A Polícia Judiciária recolheu indícios no local e o corpo foi transportado para o Instituto de Medicina Legal para confirmar as causas da morte, embora tudo aponte para causas naturais num contexto de total abandono social.